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Saímos do "drogas, sexo e rock and roll", diz diretor do BNDES

Por Marli Olmos | Valor

SÃO PAULO  -  A dificuldade de acesso a financiamento para estimular a venda de caminhões foi tema de um acalorado debate, hoje, entre representantes da indústria e do BNDES durante seminário do setor automotivo em São Paulo. Os fabricantes de veículos e de implementos rodoviários e revendedores queixaram-se do excesso de restrições nos bancos comerciais e questionam se as mudanças na metodologia para obter linhas do BNDES vão ajudar ou, ao contrário, travar ainda mais o financiamento.

Ao participar de um dos painéis do seminário, Ricardo Ramos, diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), comparou o momento em que o setor desfrutou de crédito farto a uma festa em que os convidados cometem exageros. "Foi uma festa com drogas, sexo e rock and roll", disse.

Quando chegou sua vez de falar, o vice-presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras de Montadoras (Anef), Carlos Alberto Sisto, também presidente do Banco CNH, disse: "Só que tiraram tudo da festa; poderiam ter deixado um pouco, de rock and roll pelo menos".

Ramos mostrou-se surpreso ao saber, pelos executivos da indústria automobilística que 100% do valor total do caminhão podiam ser financiados no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Ele disse que na época estava no BNDES, mas não trabalhava nesse tipo de operação.

Com taxa de juros de 3%, o PSI foi criado pelo governo federal com o objetivo de ajudar o setor produtivo e evitar uma retração na economia em meio à crise financeira mundial. Com juros considerados imbatíveis na época, o PSI era sustentado com recursos do Tesouro Nacional e, por isso, entrou na discussão em torno do déficit nas contas públicas.

Há poucos dias o ministro da Fazenda, Henrique Meireles, destacou o fato de a carteira do BNDES ser elevada hoje. Segundo Ramos, a instituição depende, no entanto, de demanda, que está afetada pela crise. "Dependemos dos bancos para fazer as operações", destaca.

Mas os representantes da indústria automobilística reclamam do "spread" elevado fixado pelos bancos mesmo nas operações do Finame, a linha de crédito do BNDES mais usada na compra de caminhões e máquinas. E dizem, ainda, que as instituições estão muito seletivas.

No caso de dinheiro para investimento, Antonio Megale, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), diz que o custo das linhas do BNDES são elevadas na comparação com recursos que as multinacionais podem obter por meio das matrizes no exterior.

Ramos garante que as mudanças de metodologia para concessão de financiamento, que entrarão em vigor em janeiro, não vão encarecer o empréstimo de recursos. A partir de janeiro, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) será gradativamente substituída pela nova TLP, com fórmula mais simples (taxa de inflação mais prêmio de juro real da NTN-B).

Para o presidente da Mercedes-Benz, as mudanças programadas pelo BNDES na metodologia "avançaram, mas ainda são muito complicadas". Para o executivo, é positivo, no entanto, que a instituição "discuta essa questão abertamente".