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Só nos resta reconhecer o vale da morte e sair dele

Por Betania Tanure

Temos formas diferentes de enxergar os problemas que vivemos. Em certos momentos, predomina a crença de que "os problemas não acabam nunca, vamos afundar!" Em outros, somos tomados pela escassez de entusiasmo de quem vê que o passado parece agonizar, mas o futuro demora a nascer. Mas o fato é que, não importa o tamanho da dificuldade que enfrentamos e do choque que vivemos, a saída está em reunir a força e a energia necessárias para fazer a virada.

Dentre os muitos comentários que recebi dos leitores após publicação do meu último artigo nesta coluna, um pedido se repetiu: "Como encontrar uma saída?" Aqui vão, então, algumas considerações a respeito. O artigo abordou a urgência de preencher o vácuo de lideranças competentes e honestas antes que ele seja ocupado pelas pessoas erradas. Além da decisão de cada um de nós de não deixar esse espaço vazio, de não nos escondermos nos problemas, precisamos reconhecer em que ponto estamos do que eu chamo de "vale da morte".

É a "morte", no sentido metafórico, que enxergamos ao enfrentar problemas profundos e complexos como os hoje vividos por nosso país, nossas empresas, nossos dirigentes e, por que não dizer, por muitos indivíduos.

O dirigente de empresa (e não só ele) que vive um momento de dificuldades desse nível tem três opções: 1- Minimizar o problema e a necessidade de transformação profunda, permitindo que as coisas continuem como estão. Mais cedo ou mais tarde (antes demorava mais, hoje é bem rápido) a empresa "despencará" ladeira abaixo, e a esperança ingênua é que isso aconteça em outra administração. Sabemos que, na política, alguns governos manejam assim os seus ciclos, mentindo descaradamente para a população, que muitas vezes, quando não é protagonista, se deixa enganar. 2- Sair da empresa e permitir que alguém com mais competência, coragem e determinação assuma o comando e inicie a jornada pelo vale da morte. 3- Ter coragem de enxergar o tamanho do problema, iniciar o processo de transformação e gerir os traumas dele decorrentes, que não serão poucos.

Como a primeira e a segunda opções não fazem parte do meu "cardápio" (e espero que não faça também do seu), vou me ater à terceira. É um caminho difícil, que traz dor, mas vale a pena! É preciso que você, líder, saiba reconhecer as diferentes fases do vale da morte para atravessá-lo com a necessária agilidade e assim poder ajudar os que lhe cercam a fazer o mesmo.

A primeira fase é a negação: ignoram-se os problemas ou o tamanho e a complexidade deles, foca-se o passado, justificam-se as dificuldades. Como você faz para sair ou tirar alguém dessa etapa? Muna-se de informações, confronte, mostre a realidade, detalhe as consequências de não mudar, ofereça exemplos de quem não se mexeu e morreu. Aqui o líder deve ter pulso firme e mão pesada para "acordar" as pessoas.

Na etapa seguinte, todavia, o pulso firme e a mão pesada não ajudam; podem até destruir. O momento é de resistência. As pessoas ficam iradas, põem a culpa no outro, ignoram os instrumentos oferecidos para a resolução de problemas. No geral, não enxergam o que está de fato acontecendo, e algumas entram em depressão. É possível ajudá-las a passar por isso com mais rapidez? Sim! Ouça empaticamente as manifestações raivosas, as lamentações e minimize as perdas sempre que possível, sem ignorar que elas sempre existirão.

Essa segunda fase é focada fortemente no que chamamos de "espaço problema", quase sempre um problema do outro. Organizações, sociedades e pessoas pouco maduras emocionalmente ficam "agarradas" a essa etapa, tornando-se incapazes de trazer para si as soluções. Mas, à medida que reconhecem a existência dessa etapa e drenam os sentimentos de raiva e tristeza, abre-se espaço para a terceira fase: a exploração.

Aqui as pessoas começam a se deslocar do espaço problema para o espaço solução. A energia ressurge, ainda de forma desorganizada, quase caótica, pois o velho ainda não morreu e o novo não nasceu. Surge uma multiplicidade de iniciativas, muitas vezes não alinhadas e com força insuficiente para caracterizar uma nova etapa. Nesse período, não se deve focar metas de longo prazo, e sim de curto prazo, capazes de ajudar a direcionar os esforços, a energia e contribuir para a construção de um novo ciclo. A liderança precisa ser diretiva no sentido de estabelecer prioridades para orientar a energia produtiva.

A quarta fase é o estabelecimento de compromisso, o momento certo para ter um novo propósito, que magnetize as pessoas. A visão é de longo prazo. Se você tentar cobrar esse compromisso em uma fase anterior, enquanto as pessoas estão deprimidas, iradas ou perdidas, a chance de sucesso é muito pequena. Nesse período o pulso muito firme também não funciona.

No processo de reconhecimento de cada uma dessas fases, a liderança tem de ser situacional - no sentido de reconhecê-las e agir considerando-as, sem ignorar os valores que realmente importam. Atenção nesse ponto! Sem mais "peraltices" não-republicanas (aqui fui gentil e elegante, eu sei).

Identifique, portanto, fase a fase, onde você, seu liderado, sua empresa, seu colega ou mesmo seu chefe está. Essa competência os ajudará a percorrer mais rapidamente o vale da morte para que o novo ciclo seja construído.

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA