Homens se beneficiam mais da rede de contatos que mulheres

Por Letícia Arcoverde | Valor

SÃO PAULO  -  Exemplo clássico de setor com participação masculina muito maior do que a feminina, o mercado financeiro até hoje suscita a visão de ser um “clube do bolinha”. Parte dessa imagem vem da importância do networking para o trabalho na área, e de uma percepção de que mulheres têm mais dificuldade em adentrar esse mundo e desenvolver uma rede de contatos. 

Um estudo de professoras da escola de negócios francesa Insead e da Universidade de Administração da Cingapura aponta, no entanto, que isso ocorre de maneira mais complexa do que a amplitude do networking. De acordo com a pesquisa, que será publicada na revista acadêmica “Review of Financial Studies”, homens e mulheres que trabalham como analistas em Wall Street são capazes de desenvolver redes de contatos de tamanho similar — mas eles se beneficiam mais desse networking do que elas.  

Para chegar a essa conclusão, as professoras observaram as conexões dos profissionais com executivos seniores das empresas analisadas por eles no trabalho, que incluir a recomendação de compra ou venda de ações. Tanto homens quanto mulheres são capazes de desenvolver esses laços em 25% dos casos, e quanto mais conexões são feitas, mais exatas são as previsões dos profissionais.

As conexões têm efeito positivo mais intenso, contudo, no desempenho dos profissionais homens do que no caso das mulheres. Parte disso se dá pela pouca presença de mulheres nos cargos de alto escalão, uma vez que a pesquisa aponta que as conexões entre profissionais do mesmo sexo contribuem mais para a exatidão do trabalho de analista do que aquelas entre homens e mulheres — e que as conexões entre homens são ainda mais efetivas do que aquelas entre mulheres.   

O estudo também aponta que a rede de contatos tem um papel diferente na avaliação do trabalho de profissionais homens e mulheres. Isso foi identificado por meio da análise do prêmio “All American”, realizado anualmente pela revista “Institutional Investor” com base em uma votação de milhares de investidores. 

No período analisado, entre 1993 e 2009, as mulheres eram 12% dos analistas de Wall Street, uma porcentagem baixa, mas similar ao encontrado em cargos de gestão no resto do setor. Nesse período, elas também representaram 14%  dos analistas premiados pela revista, o que indica que não há discrepância significativa na seleção dos ganhadores.

Quanto maior a rede de contatos do profissional, maior a chance de ele ou ela ser escolhido para receber o título, aponta a pesquisa. No caso de homens, um networking amplo pode ainda atenuar erros nas previsões e recomendações de compras e vendas de ações. Para analistas mulheres, no entanto, o efeito é contrário. Quando cometem erros, o número elevado de conexões na verdade diminui as chances de a profissional obter o título. 

As autoras dizem que, embora o número proporcional de mulheres premiadas indique que elas estão obtendo sucesso no setor, os fatores que as empurram nessa direção são diferentes, e o uso de uma rede de contatos robusta não contribui tanto para seu desempenho quanto no caso dos homens.

Para Lily Fang, uma das autoras e professora do Insead, os resultados sinalizam a existência de um “clube do bolinha” no setor, mas por razões mais complicadas do que a discriminação direta, atenuada pelos esforços de instituições do mercado financeiro de incentivar a igualdade de gênero em todos os níveis. “Os resultados apontam para uma forma mais sutil — e talvez mais traiçoeira — de preconceito de gênero: homens e mulheres são avaliados com critérios diferentes nas nossas mentes subjetivas”, diz.