Assédio sexual no reino das startups é sintomático

Por Claudio Garcia

Dois acontecimentos relacionados a assédio sexual perturbaram o Vale do Silício recentemente. O Uber demitiu várias pessoas após uma longa investigação por causa de denúncias de má conduta do alto escalão. Em outro caso, o sócio de um venture capital da região foi denunciado por seis mulheres por assediá-las enquanto mantinha conversas de negócio.

Esses eventos, associados a vários outros que se seguiram, despertaram a atenção ao tema na região, gerando manifestos de vários líderes de empresas de tecnologia e venture capital. Eles fizeram um "juramento de decência", de que se engajariam e tomariam medidas concretas para evitar o que eles consideram (e de fato é) inaceitável.

O que esses fatos realçam é que, apesar de toda a aura de sofisticação e de ser um dos destinos mais desejados no mundo para se trabalhar, o Vale do Silício e as empresas que o representam ainda possuem não só um sério problema de diversidade de gênero (70% dos seus funcionários são homens) mas comportamentos complicados na sua relação com as mulheres. Assédio sexual é apenas a manifestação mais latente de comportamentos muitas vezes sutis e imperceptíveis de ambientes misóginos, que estão na essência da mudança que tem que acontecer.

Como o tema ficou em evidência, conversei com diversas executivas atuando no Brasil sobre sua experiência com o tema. Não foi difícil encontrar exemplos sutis do que estou falando. Como em um caso, onde uma executiva de marketing e vendas de uma empresa de mídia, única mulher na área, sentia que não era ouvida quando dava sua opinião sobre temas relevantes. Uma das razões é que, de acordo com ela, o grupo já tinha discutido todos os temas em um grupo de chat que ela sabia que existia, mas no qual eles não permitiam que ela entrasse por ser mulher. Era difícil conseguir o mesmo nível de intimidade profissional já que ela era excluída do principal canal de comunicação entre eles.

Em outro caso, uma executiva de compras, apesar de performar consistentemente em sua função, era excluída das negociações mais relevantes porque elas precisavam de alguém "agressivo" como, implicitamente, um homem. Esses exemplos sutis são parte de muitos que ouvi e representam milhares de outros, que eliminam silenciosamente a ascensão de mulheres na organização. O Brasil claramente tem um bom dever de casa para incluir mais mulheres no ambiente de trabalho. No último Global Gender Gap Report, do Fórum Econômico Mundial, o Brasil está em 79º lugar entre 144 países. Em alguns critérios, como participação econômica e oportunidade estamos em 91º.

Voltando às minhas conversas com as executivas, estas não ficaram somente nos exemplos sutis: eliminação em processos de recrutamento devido à gravidez, ofertas implícitas de promoção em troca de encontros, rituais machistas para entrada de mulheres na empresa e assédio moral usando argumentos machistas foram comuns na maioria da conversas. Todas se mostravam indignadas ao lembrar das histórias, mas quando perguntei como elas lidavam com a questão, quase todas comentaram que isso é normal e, portanto, elas tiveram que aprender a conviver com a situação.

Essa normalização ou aceitação atrasa a mudança, já que não dá para mudar aquilo que não é explicitado. Se não se conversa ou não se fala, não se conserta. Fiquei imaginando quantas mulheres talentosas perdem oportunidades pelo fato de terem um pouco mais de dificuldade para lidar com essas situações.

As denúncias no Vale do Silício desencadearam diversas ações contra o problema, como canais de denúncia, treinamentos para conscientização e revisões de práticas de gestão. No Brasil, não precisamos esperar por denúncias para começar a agir.

Muitos usam justificativas para essas mudanças, como o fato da maior equidade de gênero trazer melhores resultados financeiros e um ambiente mais justo e melhor para se trabalhar. Todos verdadeiros. Mas a HeForShe, uma campanha solidária da ONU para o avanço das mulheres na sociedade através do engajamento de homens como agentes de mudança, considera esse essencialmente um problema de direitos humanos. Nada mais real.

Claudio Garcia é vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York