Divã Executivo

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Qual o risco de trocar de emprego hoje?

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Trabalho há 10 anos em uma grande empresa sólida, como gerente financeiro e, embora a direção reconheça que fiz um bom trabalho, não vejo mais desafios e nem perspectivas de crescimento. Sinto-me um pouco frustrado porque me dediquei bastante à empresa, porém, não tive o retorno esperado. Já falei isso com o meu chefe que reconhece que mereço, mas o momento não é o ideal para aumentos nem promoções. Por outro lado, tenho sido chamado para participar de alguns processos em empresas similares, embora um pouco menores, mas com grandes desafios de restruturação/montagem de equipes, acenando com a possibilidade de ganhos bem maiores e de ascender à posição executiva. Dado o cenário descrito na empresa atual, resolvi participar do processo em uma das empresas e agora recebi uma proposta que em primeiro momento parece irrecusável. Considero que já fiz o "dever de casa", avaliando a empresa, possível novo chefe, mas a empreitada oferece riscos também bem maiores. Estou me sentindo atraído pela proposta, mas receio tomar esse risco considerando o momento atual do país, além do que já passo dos 40 anos e tenho esposa e 3 filhos para criar. Também não gostaria de ficar mais estacionado onde estou. O que ainda posso fazer para mitigar os riscos, caso decida mudar de empresa? Como medir os riscos de uma troca de emprego?

Gerente financeiro, 41 anos

A análise precisa ser mais ampla e levar em consideração não apenas os riscos da mudança, mas também os de não mudar e de ficar onde se está. É normal que, nesses tempos difíceis, nos quais as coisas parecem não evoluir, surjam dúvidas ou mesmo insatisfação sobre as escolhas e expectativas de carreira.

A impressão que se tem é que se está há muito tempo fazendo as mesmas coisas, que a carreira não está evoluindo, e que não se chegará mais ao cargo dos sonhos. Alguns aproveitam, mudam e relançam a carreira. Outros, apesar de se questionarem e se darem conta que passaram a vida controlando e abafando parte considerável de sua personalidade, decidem se acomodar.

As duas alternativas de carreira apresentam riscos. Para avaliá-los, é importante ressaltar, no entanto, que a carreira não é um fim em si mesmo. Carreira não é o objetivo, o destino. Carreira é apenas um dos caminhos para se atingir o que se quer da vida, o propósito na vida, bem-estar e felicidade. Carreira é como se fosse uma estrada que leva ao destino escolhido. O emprego e a empresa em que se trabalha são os veículos desta “viagem”. O que pode garantir a adequação das escolhas, tanto de carreira como de empresa empregadora, é a certeza que se está na direção do objetivo almejado.

Mudar de caminho, ou seja, mudar de carreira, de trabalho, tarefa ou função, só faz sentido em duas situações; ou quando se altera de destino e objetivo na vida, ou quando se percebe que a escolha feita não mais levará ao destino. Tendo certeza de que se está no caminho certo, o importante, então, passa a ser conseguir um bom veículo, ou seja, um bom emprego, na empresa mais adequada.

Bom emprego é aquele em que se consegue trabalhar fazendo as coisas que mais se gosta de fazer, do jeito que gosta e com quem gosta. Mudar de empresa, trocar de veiculo, só deve ser feito quando aquele em que se está já não funciona mais, não leva ao destino, e, além disso, não se tem mais prazer em trabalhar nela, e nem com os parceiros; chefes, pares e subordinados. Mesmo assim, é importante, antes de sair, ter a certeza, ou pelo menos a percepção, de que se está indo trabalhar em um lugar que seja melhor.

Existem várias formas e meios de construir essa percepção. Pesquise nos sites especializados sobre condições de trabalho em empresas (e hoje existem vários), busque informações com pessoas que trabalham ou trabalharam na empresa e/ou com as pessoas com as quais você irá trabalhar. Consulte informações econômicas sobre a empresa. Veja nas redes sociais e em sites de reclamações o que o mercado fala da empresa. Mudar de empresa não é mais um salto no escuro.

Há sempre a possibilidade de, depois de toda essa análise, ao entrar na nova empresa, você não conseguir ter um desempenho que garanta não só a permanência como também a ascensão. O desempenho não depende somente das competências, mas também de variáveis que você não pode controlar. Depende dos produtos e serviços que a empresa propõe para o mercado e, sobretudo, também depende dos outros, ou seja, da liderança, do ambiente de trabalho, das crenças e valores do grupo.

Esse sempre será o maior risco; trabalhar e conviver com novas pessoas e nova cultura. De qualquer forma, se você se sente estagnado e insatisfeito na carreira, você precisa arriscar. Ficar parado é andar para trás. Você tem que mudar, promover mudanças em si próprio, em suas crenças, hábitos e expectativas, e não apenas mudar de empresa. Em qualquer situação de mudança, há uma clara divisão entre esperança e apreensão. É normal ter-se receio. É o medo de fracassar.

Aos quarenta anos é preciso tomar um pouco mais de cuidado antes de partir de novo, com o "pé direito", na busca dos sonhos. Normalmente, os "quarenta anos" é a idade ideal para se passar do operacional para o estratégico, por isso, a pressão é intensa. Neste momento decisivo da vida as competências técnicas já não são mais suficientes. Agora é preciso saber controlar as emoções, compreender os outros, saber convencer, passar mensagens, e antecipar.

Nesta idade se está no melhor momento, aquele em que se tem o maior valor para o mercado de trabalho; a fusão do conhecimento, experiência e ambição. Aproveite este momento. Em tempos de crise o ideal é buscar se desenvolver para se colocar na categoria de profissionais que dominam competências estratégicas e dispõem de um “capital de conhecimento amplo e universal”.

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Gilberto Guimarães é diretor da GG Consulting e professor.

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.