Divã Executivo

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Como saber se estou preparada para ser gestora?

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: diva.executivo@valor.com.br

Sou formada em direito, pós-graduada em administração de empresas e especialista em jurídicos corporativos, e trabalho como advogada há sete anos. Estou ciente de que estou em uma fase de transição entre um cargo de especialista para um cargo de liderança e gerência. Porém, quando participo de processos seletivos em grandes empresas, me sinto insegura quanto ao meu ‘know-how’. Estou sempre ansiosa para entender melhor sobre tudo e acredito que isso acaba me fazendo perder o foco. Sempre tenho medo de meu conhecimento e experiência não serem suficientes, mesmo recebendo promoções e ótimos feedbacks. Como me sentir mais segura em relação a isso e saber se já estou preparada para um cargo de gestão? 

Advogada, 29 anos 

Prezada advogada,

Talvez possamos trocar a sua pergunta: é importante estar absolutamente bem preparada para concorrer a um cargo de alta gestão? Há alguém completamente preparado para isso? O erro não seria partir dessa premissa? Pergunto porque há um paradigma equivocado que você pode estar usando para refletir sobre essa questão. 

A pergunta é se você é capaz de assumir um cargo para o qual nunca ninguém está suficientemente preparado. É sobre a qualidade da sua formação, ou seja, sobre o quanto você consegue fazer uma leitura adequada do contexto, do cenário e da organização, por um lado, e quanto você tem resiliência, coragem e atitudes adequadas, por outro.  É da conjugação desses fatores que surge um bom gestor, capaz de liderar em cenários complexos e imprevisíveis, com informação imperfeita e com desafios internos de cooperação e colaboração.

Aqueles que se apoiam excessivamente na formação técnica e formal nunca estarão preparados para esses cargos, que têm um forte componente político (entendido aqui no bom sentido do termo) e de habilidades de liderança, como a capacidade de conciliar e ajustar interesses muitas vezes opostos sem perder o foco nas questões mais relevantes e conseguindo produzir resultados em meio às dificuldades.

A capacidade de fazer coalizões, envolver e engajar pessoas e viabilizar ações em meio a resistências claras e outras veladas é relevante para os ocupantes desses cargos.  Por outro lado, estudos mostram que há uma diferença significativa entre homens e mulheres em relação à percepção de preparo. E é importante estar atenta a isso para garantir que a socialização como mulher não a atrapalhe nesse tipo de desafio. 

Pesquisas mostram que se houver uma lista de pré-requisitos para um determinado cargo, os homens concorrem para o cargo mesmo que tenham apenas 3 requisitos completos da lista. As mulheres tendem a não concorrer se não se sentirem bem formadas nos 10 itens. 

A forma de se colocar em uma entrevista, o nível de segurança e assertividade, a capacidade de demonstrar foco e equilíbrio são bastante relevantes. Ninguém selecionará uma pessoa para um cargo de poder sem esses atributos. E não podemos nos esquecer que cargos de alta administração são, na realidade, cargos de poder. Então, mais do que saber executar brilhantemente as tarefas do ponto de vista técnico é importante saber cercar-se de bons técnicos. 

Naturalmente conhecimentos de gestão são importantes. Mas lacunas de conhecimentos, em certo grau, é possível suprir de várias maneiras, ou trazendo gente competente para perto, contratando consultores ou instituições de ensino para fazer programas de desenvolvimento executivo, especialmente se for para assuntos pontuais. O que não dá para comprar é o bom-senso de saber quando isso é necessário ou a capacidade de enxergar alternativas para a ausência de conhecimento especifico sobre um determinado assunto. 

A visão geral, o senso crítico e analítico associado à capacidade de fazer coalizões é que é fundamental. Se você estiver preparada e ainda assim achar que não há espaços na organização em que você está, talvez seja melhor encontrar uma organização que saiba reconhecer o seu talento.

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: diva.executivo@valor.com.br

Marco Tulio Zanini é professor e coordenador do mestrado executivo em gestão empresarial da FGV e consultor da Symballein.

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.