Premiação consagra lado mais sério da Broadway

Por João Luiz Rosa | Valor

SÃO PAULO  -  O teatro musical é frequentemente associado a uma forma de entretenimento leve, escapista, distante da realidade. As pessoas saem do teatro assoviando uma canção, mas sem muito o que refletir, reclamam os mais críticos. Muitas produções, de fato, reforçam esse estereótipo. Mas a mais recente edição do Tony, o maior prêmio do teatro americano, mostra que o gênero também tem tutano a oferecer. Realizada em Nova York, no domingo, 11, a cerimônia do Tony 2017 consagrou “Dear Evan Hansen”, uma peça que trata de solidão, falta de habilidade social, fama instantânea e suicídio — todos temas que estão na ordem do dia.

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“Dear Evan Hansen” tem músicas compostas pela dupla Benj Pasek e Justin Paul, a mesma que levou o Oscar e o Globo de Ouro deste ano pela canção “City of Stars”, do musical “La La Land”. Eles também levaram o Tony, assim como o dramaturgo Steven Levenson, responsável pelo texto da peça. 

O protagonista da história, o Evan Hansen do título, é um adolescente com transtorno de ansiedade que escreve cartas para si mesmo por sugestão de seu terapeuta. Por engano, uma dessas cartas vai parar nas mãos de outro desajustado social, Connor Murphy, que pouco depois se mata. Quando os pais do garoto morto descobrem a carta, aproximam-se de Evan para tentar saber o que levou o filho a tirar a própria vida. Para os pais, a carta é uma prova da nobreza de Connor, que estaria preocupado com o amigo quando ele mesmo enfrentava uma dor indizível. Evan é transformado em estrela instantânea pelas redes sociais e passa a enfrentar um dilema – manter a fama, baseada em um mal-entendido, ou contar a verdade, com o risco de perder a popularidade e magoar cruelmente os pais de Connor.

Gatilho da trama, o suicídio — principalmente de jovens adultos e adolescentes — tem atraído atenção nos últimos tempos. O Netflix transformou em série o livro “13 Reasons Why”, de Jay Asher, no qual uma garota suicida deixa 13 fitas cassete para pessoas que, de alguma forma, teriam cooperado para que ela decidisse morrer.

“Dear Evan Hansen” também é um dos primeiros musicais a colocar em evidência as redes sociais e seu poder de criar heróis, mesmo que fugazes. Blogueiros e youtubers são, provavelmente, a parte mais visível e festejada desse movimento, mas a celebridade on-line tem um lado negro. É caso dos episódios crescentes da chamada vingança pornô, quando a vítima tem fotos ou vídeos íntimos expostos por ex-cônjuges ou namorados. 

O diretor de “Dear Evan Hansen”, Michael Greif, tem experiência em tratar de temas delicados na Broadway. É dele a já histórica montagem de “Rent” (1996), de Jonathan Larson, sobre um grupo de jovens boêmios infectados com o vírus HIV que vivem na Nova York da virada do século. Greif também levou aos palcos “Next to Normal” (2008), sobre uma mulher com transtorno bipolar.

Ao contrário do ano passado, quando “Hamilton” — sobre a vida de Alexander Hamilton, o primeiro secretário do tesouro americano — dominou a premiação, levando 11 estatuetas, o Tony deste ano não teve favoritos tão destacados. O prêmio faz uma separação entre musicais e não musicais. Nessa última categoria, o vencedor foi “Oslo”, sobre o início das negociações de paz entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), no começo dos anos 90. Bette Midler foi uma das sensações da noite, ao ganhar o prêmio de melhor atriz em musical por seu papel na remontagem de “Hello, Dolly”.

Na abertura da cerimônia, o ator Kevin Spacey, que conduziu o espetáculo, resumiu o tom do prêmio neste ano: “Relembrando os principais temas da temporada, temos divórcio, depressão econômica, infidelidade, o conflito israelense-palestino, a guerra do Vietnã, o 11 de Setembro, suicídio e ganância. Teremos uma noite muito divertida!”, brincou o protagonista da série “House of Cards”.

Ninguém espere, porém, que a Broadway ou o musical americano abandonem os enredos fantásticos e cenários grandiosos. “O Fantasma da Ópera”, com seu lustre em queda, e “Miss Saigon”, que chegou a colocar um helicóptero em cena, continuam a atrair o público. Para 2018 estão prometidos “Frozen”, a versão para os palcos do desenho de maior audiência na história da Disney, e “King Kong”, que trará uma marionete gigante, com seis metros de altura, para recontar a história do gorila que se apaixona por uma bela mulher. É fantasia em tamanho família.