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Brasileiro poupa mais e engorda aplicações

Por Adriana Cotias | De São Paulo

Em meio a uma economia que custa a engrenar diante da indefinição do quadro político, o brasileiro tem se esforçado para guardar mais dinheiro. Tal comportamento tem se refletido na dinâmica das aplicações financeiras. Enquanto as captações de CDB no ano já somam R$ 75,9 bilhões, em grande parte pela queda no estoque de compromissadas, os números do setor de fundos têm surpreendido. Até o fim de maio, o setor tinha atraído R$ 107,1 bilhões líquidos. Para se ter uma ideia, em 2016 inteiro os ingressos tinham somado R$ 129,6 bilhões.

Segundo o vice-presidente da Caixa, Fábio Lenza, o menor endividamento das famílias e a injeção de recursos do FGTS na economia explicam, em parte, o forte ritmo das aplicações financeiras no seu conjunto. As empresas, por seu lado, como estão menos alavancadas e têm privilegiado caixa, também acabam recorrendo aos títulos de renda fixa que pagam um percentual do CDI, como o CDB, por exemplo.

"Após um período de ajuste, com as famílias em processo de tomar menos crédito, naturalmente há um alívio na renda", diz Lenza. Ele acrescenta que não dá para desprezar os R$ 46 bilhões que vêm sendo liberados com os saques das contas inativas do FGTS. Como o destino principal desses recursos tem sido o pagamento de dívidas, a percepção é que no mês seguinte há uma folga que acaba indo para investimentos, especialmente os mais tradicionais: poupança, fundos de renda fixa e CDB.

Pelos dados do BC, a relação entre o saldo de dívida das famílias e a renda acumulada em 12 meses caiu de 44,1% para 41,9% entre março de 2016 e março de 2017, excluindo-se o financiamento imobiliário. Já o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas no fim do primeiro trimestre estava em 22%, em comparação a 22,6% de um ano atrás.

A redução do consumo das famílias em meio a taxas de desemprego elevadas fez com que muitos trabalhadores tenham ampliado a sua poupança, afirma Martin Iglesia, consultor de investimentos do Itaú Unibanco.

"Caiu a ficha sobre a importância de se ter uma reserva de emergência. Um evento como a crise recente deixa marcas", comenta. "É difícil dizer se será um movimento duradouro, mas muita gente está tentando guardar dinheiro por precaução."

Nesses movimentos de formação de reserva de emergência, em que é recomendado ter de três a seis meses de gastos, são os investimentos líquidos e mais conservadores que costumam ser privilegiados, como o CDB e os fundos de renda fixa. No Itaú, os portfólios indexados ao Depósito Interfinanceiro (DI, o juro usado nas transações entre instituições financeiras), têm sido uma das principais recomendações para essa finalidade, conta Inglesia.

Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que é a pessoa física que tem puxado a captação do setor de fundos. Até abril, os segmentos varejo, varejo de alta renda e private registravam um ingresso líquido de R$ 63,6 bilhões, de um total que chegava a R$ 88,4 bilhões.

O comportamento recente de empresas e famílias brasileiras já se reflete nos dados macroeconômicos. Em um ano, a taxa de poupança aumentou quase dois pontos percentuais, de 13,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre de 2016 para 15,7% nos três primeiros meses de 2017, segundo o IBGE.

Até a velha caderneta de poupança voltou a atrair a atenção do investidor. Foram R$ 292,6 milhões em dinheiro novo no mês passado. A estatística foi puxada pela Caixa, que levantou sozinha R$ 1,1 bilhão no mês. No acumulado do ano, no entanto, a caderneta ainda perde R$ 18,4 bilhões como um todo.

Com a trajetória de queda da Selic, Lenza, da Caixa, vislumbra uma recuperação da captação, que a depender do prazo já começa a ficar mais competitiva em relação aos fundos, em alguns casos. Conforme exemplifica, num aplicação de R$ 1 mil, por seis meses, pelas taxas atuais a caderneta renderia R$ 36,71, enquanto num fundo com taxa de administração de 2,5% e sob alíquota de imposto de 22,5%, resultaria em R$ 28,23.

Sua argumentação evidencia o foco que o banco público vem dando à modalidade, que desde 2015 acumula fortes saques no mercado. A Caixa detém 38,4% de participação do segmento de caderneta de poupança, que serve de funding para uma das suas principais linhas de atuação, o financiamento imobiliário.

O Tesouro Direto, que tem sido um dos destinos do dinheiro sacado da caderneta, atraiu R$ 25,6 bilhões em 2015, R$ 15,5 bilhões no ano passado e R$ 2,0 bilhões até o fim de abril.

O Banco do Brasil tem notado certo aumento na procura por fundos e são as carteiras de renda fixa que mantêm a preferência entre os investidores de perfil conservador. Mas a instituição também observa alguma busca por diversidade e maior retorno nos fundos multimercados.