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'Não vai faltar crédito para as empresas', afirma Caffarelli

Por Vinícius Pinheiro | De São Paulo

Ana Paula Paiva/Valor
Paulo Caffarelli, presidente do BB: "não posso puxar o tapete do cliente na hora que ele mais precisa de dinheiro"

A demanda por crédito pelas empresas brasileiras no processo de retomada da economia será atendida pelos bancos e pelo mercado de capitais. A afirmação é do presidente do Banco do Brasil, Paulo Rogério Caffarelli.

Alguns bancos atuaram de forma cíclica, reduzindo as operações de crédito durante a crise. Esse não foi o caso do BB, segundo Caffarelli. "Eu não posso puxar o tapete do cliente na hora que ele mais precisa de dinheiro", disse o executivo, em entrevista ao Valor.

Pouco mais de um ano depois de assumir o comando do BB, Paulo Rogério Caffarelli conseguiu reduzir a distância entre a rentabilidade do banco e a dos principais concorrentes privados. Mas sabe que ainda tem um longo caminho a percorrer. "Eu ainda não estou satisfeito", diz. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: As empresas reclamam com frequência da escassez de crédito. O que acontece?

Paulo Caffarelli: Grande parte das empresas que batem na porta já tem crédito com o banco. Como temos limite de crédito por empresa, nós não podemos expandir mais o volume com esse determinado cliente. O Banco do Brasil não parou de operar na crise, por isso a gente acaba tendo certa limitação, não por nossa vontade. Isso também não quer dizer que nós somos conservadores nesse limite. Eu estou rolando [o crédito], adaptando as condições à nova capacidade de pagamento.

Valor: O sistema financeiro está pronto para atender à demanda das empresas a um custo competitivo no processo de retomada da economia brasileira?

Caffarelli: Não tenho dúvida. Alguns bancos trabalham de forma cíclica e outros de forma anticíclica. Em um momento de estabilidade, há espaço para os dois. O mercado de capitais também precisa ser considerado na composição de mix de captação das grandes empresas. No final do dia, é um funding disponível, com um custo que o mercado vai regular e que não vai concorrer com os limites de crédito dos bancos.

Valor: Os grandes bancos têm falado em aumentar a exposição ao varejo. Esse foco não pode prejudicar o crédito às empresas?

Caffarelli: O Banco do Brasil tem feito um esforço redobrado nessa área. Veja a nossa base de clientes pessoa jurídica, por que a gente sofreu mais com a inadimplência? Porque a nossa base é infinitamente maior. Alguns de nossos concorrentes atuam de forma cíclica. Em um momento de estabilidade, como agora, eles retomam o processo de crédito. Nós não chegamos a ser anticíclicos, mas temos uma relação de perenidade com o cliente. Eu não posso puxar o tapete dele na hora que ele mais precisa de dinheiro.

Valor: Mas a carteira de crédito de empresas do BB também caiu...

Caffarelli: A carteira caiu porque o volume de liquidação e perdas foi maior do que os desembolsos. Mas se você observar ao longo do tempo, nós não paramos de desembolsar, e com crescimento na pessoa jurídica. As empresas também reduziram a tomada de recursos, e você não faz crédito forçando a demanda.

Valor: Quais os efeitos da maior concentração bancária no crédito? A pressão para a redução nos spreads diminui?

Caffarelli: O banco sobrevive de crédito. Nos cinco maiores bancos já existe concorrência. E mesmo os bancos menores têm o seu papel no fornecimento de crédito, o mercado que funciona. E eu sou cobrado por resultado. Se o meu maior resultado vem do crédito, como eu não posso fazer crédito? A gente não pode simplesmente achar que pode segurar os spreads para manter as margens.

Valor: Como o Banco do Brasil deve atuar crédito no pós-crise?

Caffarelli: O crédito chegou a representar 55% do PIB e hoje está em 47%. Se vai voltar para os níveis anteriores eu não sei te dizer, mas certamente não vai ficar em 47%. O que pode haver é uma diferença no perfil na carteira do banco, com o agronegócio, pessoas físicas e micro e pequenas empresas ganhando participação e uma redução no corporate, porque o mercado de capitais deve atrair essa demanda. Outro ponto que você tem que considerar é que, se eu dou crédito para um cliente muito grande no atacado, consumo mais capital e tenho menor margem do que se eu aumentar o consignado, por exemplo.

Valor: Mas isso não significa que pode faltar crédito para as grandes empresas?

Caffarelli: Impossível. Em um ambiente de queda dos juros é natural que a demanda no mercado de capitais cresça. O investidor precisa de mais retorno e vai procurar o risco privado.

Valor: Quais as iniciativas em curso para estimular o crédito?

Caffarelli: A gente tem trabalhado praticamente toda semana com o BNDES e a Caixa [Econômica Federal], com participação do Ministério da Fazenda e do Planejamento. E o primeiro movimento será o lançamento de uma linha no fim do mês para micro e pequenas empresas, chamada Crédito Ágil. Vamos trabalhar com funding do BNDES, mas não vamos depender de mandar um processo para o banco analisar. O que está fechado é que em um dia teremos a resposta se pode ou não com aquele determinado cliente.

Valor: Qual o seu principal desafio hoje à frente do banco?

Caffarelli: Eu ainda não estou satisfeito com o resultado presente do banco, embora esteja crescendo, com a participação ativa dos 100 mil funcionários. O Banco do Brasil tem total capacidade de ter resultados melhores pelo seu tamanho, capilaridade e relacionamento com os clientes. Temos que buscar resultados compatíveis com o tamanho do banco e comparáveis com os nossos concorrentes.

Valor: E como o banco pretende chegar lá?

Caffarelli: O banco tinha uma carteira de crédito muito concentrada em operações com taxas baixas. Nossa carteira era maior, mas nosso spread era a metade dos outros bancos. Por isso a gente acredita que, trimestre após trimestre, a gente vai melhorar o nosso resultado. Há um ano isso vem acontecendo, o que mostra que estamos em uma estratégia correta. Além de gerar receita com crédito, serviços e tesouraria, é preciso fazer uma lição de casa bastante forte em relação à redução de despesas.

Valor: Ainda há espaço para ajuste nas taxas?

Caffarelli: Esse ajuste é permanente. É possível reduzir taxas e aumentar o spread mudando o perfil da minha carteira, trazendo [linhas com] mais margem e melhores spreads.

Valor: Qual a meta de crescimento do banco, até onde pode chegar?

Caffarelli: A meta é a primeira desde o primeiro dia: chegar junto ao Bradesco e ao Itaú. Como no passado já tivemos resultados compatíveis, não tem por que não termos hoje.

Valor: Essa busca por uma maior rentabilidade é compatível com o papel de banco público?

Caffarelli: Sim, e por um único motivo: a gente não deixa de fazer o nosso papel. O agronegócio e as micro e pequenas empresas são uma grande demonstração disso. Mas nós somos uma empresa de capital aberto. Se deixo de ter a mesma performance dos meus pares, vou perder valor. A única maneira de continuar sendo eficiente é ter uma performance adequada aos pares. E a única maneira de não fazer isso é fechar o capital e transformar o banco em uma empresa pública.

Valor: A velocidade da recuperação da economia frustrou a todos no primeiro semestre. Quais as perspectivas?

Caffarelli: Vários indicadores mostram que houve uma melhora no primeiro semestre, embora não seja uma melhora significativa. Espero um segundo semestre melhor do que foi o primeiro e que, obviamente, a gente tenha uma nova realidade a partir de 2018.

Valor: E o risco político?

Caffarelli: Acho que a questão econômica tem sua pauta própria, e ela não se baseia na questão política. Agora nem por isso eu posso deixar de dizer o quão importante é a aprovação da reforma da Previdência, para ratificar esse processo de retomada.

Valor: O BB sinalizou que pretende vender ativos que não façam parte da atividade principal do banco. Como está esse processo?

Caffarelli: Está em andamento. Nós anunciamos [a venda da participação de] Kepler Weber. Na Neoenergia, nós devemos sair em uma oferta de ações. Nós também já vendemos um pedaço do IRB. O que a gente puder fazer, dentro dos ativos que não são "core business", para reforçar a nossa estratégia de capital será feito. Mas nós não dependemos disso.

Valor: E quanto às participações no Banco Votorantim e no argentino Patagonia?

Caffarelli: Sobre o Patagonia, seria muito bom continuarmos operando na Argentina, acreditamos no crescimento da economia e o banco nos dá um resultado muito satisfatório. O que nós vamos fazer lá é trabalhar na possibilidade de uma oferta de ações. Agora, nós somos banqueiros. Não podemos deixar de analisar qualquer oferta que venha, mas vale é o que nós anunciamos ao mercado. No Votorantim, neste momento nosso grande objetivo é rentabilizar o banco. Se nós vamos vender no futuro é outra conversa.